«Se ainda somos diferentes e capazes de existir, nom é mais que por obra e graça do idioma». «Desejo, ademais, que o galego se acerque e confunda co português».
Daniel R. Castelão
Recentemente o Tribunal Superior de Justiça da Galiza sentenciou, perante a demanda da ferrolana Fundação Guerra da Cal, que a Administraçom autonómica galega pode recusar-se a aceitar documentos em galego escrito segundo a norma portuguesa.
Também a Deputaçom de Pontevedra anulou um subsídio por uso do galego, ao centro social ‘A Pedreira’, por este centro utilizar a norma reintegrada.
Chama-nos a atençom a atitude da Administraçom. Cabe perguntar-se se também se recusarám a aceitar quando os documentos vinherem dumha entidade portuguesa, por exemplo comunicações no âmbito da Eurorregiom Galiza-Norte de Portugal. Ou só se rejeita a norma galego-portuguesa quando a remetente é galega? Como chegamos a este absurdo e como nos afeta?
História
No fim da Idade Média, a língua «oficial» escrita na Galiza era coincidente com a língua escrita em Portugal. Vemos a coincidência lingüística em centenas de documentos civis, notariais, de bispados e de mosteiros e mesmo na esplêndida lírica comum. Ninguém duvidava nessa altura que galego e português eram a mesma língua.
Mas isso mudou quando entrou Fernando de Acuña no Reino de Galiza com os exércitos da rainha Isabel, no final do s. XV. Foi o nosso «Pizarro». Massacrou, venceu e colocou castelhanos no comando civil, militar e eclesiástico do nosso Reino.
A partir desse momento, os documentos galegos só se escrevem em castelhano. Nom fôrom precisas leis explícitas nem «Decretos de Nova Planta»: naturalizou-se por meio dos factos e com umha série de ideias para incutir nas mentes dos vencidos, como «o que vós falades é um dialeto corrompido do castelhano; o natural é adotardes a língua do império e abandonardes já essa vossa fala inútil».
—Mas olhem… no Reino de Portugal continuam a utilizar a nossa língua e é perfeitamente válida para tudo. É a prova evidente de que as vossas mercês nom têm razom.
—Nom, nom! Esqueçam totalmente isso! O Galego nom é Português e o Português nom é Galego! (Nom vaia ser o demo que a Galiza queira imitar Portugal em seguir o seu próprio caminho).
Esse vírus do «Galego nom é Português e Português nom é Galego» inçou as mentes na Galiza.
Também as inçou em Portugal (Nom vaia ser o demo que Castela pense que nos pode tratar como essa Galiza que tem dominada).
Ninguém replicou?
Padre Feijoo (s. XVIII) – «O idioma Lusitano e o Galego som um mesmo».
Seguirom-no muitas outras pessoas ilustres com declarações semelhantes: Padre Sarmiento, Gregório Mayáns i Siscár, Antonio de la Iglesia, Rosalia de Castro, Eduardo Pondal, Manuel Murguia, Francisco Tettamancy, Benito Vicetto, Leite de Vasconcelos, Antón Vilar Ponte, Vicente Risco, Daniel R. Castelão, Johán Vicente Viqueira, Leandro Carré Alvarellos, Álvaro das Casas, Ernesto Guerra da Cal, Valentín Paz Andrade, Eugen Coseriu, Joan Coromines, Ricardo Carvalho Calero…
Mas nom conseguírom pôr remédio: o vírus inça as mentes ainda nos dias de hoje, inclusive de muitas pessoas galeguistas.
Nos dias de hoje
Já nom é império de Castela, agora é Reino de Espanha. Dá-se umha certa oportunidade política de o Galego recuperar espaços de uso. Permite-se… desde que nom se tente utilizar a potência do Português para esse fim. Entom é inoculada no povo umha nova dose do vírus «o Galego nom é Português e o Português nom é Galego», acompanhada doutras como «a norma tem que seguir a fala do povo». Como a fala do povo se está a hibridizar cada vez mais rapidamente com o castelhano, portanto… a norma terá de se mover na direçom do castelhano, até se dissolver nele?
Em consequência, aplicando na prática esta “oficialidade”, encontraremos que na Administraçom autonómica galega admitirám castelhano, galego RAG e qualquer híbrido entre eles:
—El miércoles probablemente traeré los papeles (RAE).
—O miércoles probablemente traeréi os papeles.
—O mércores probablemente traerei os papeis (RAG).
Com o seguinte caso, se calhar já torceriam o focinho e iriam ver se pode ser rejeitado como português:
—A cuarta feira probabelmente traerei os papeis (RAG 2).
Ora, umha ousadia como:
—Na quarta-feira provavelmente trarei os papéis.
Será anátema! Português! Proibido!
Ver ‘qua’ e ‘provável’ será intolerável para pessoas inoculadas com o vírus, como ver ç, ã, õ, ge, gi, j… letras habituais no Galego anterior ao vírus.
Pensando nas línguas como rios, se o galego é um ramal do rio galego-português e a tendência forçada polo poder político e económico é levar esse ramal a desembocar no rio castelhano-espanhol, a única opçom para nom acabar dissolvido nele como um simples «acento gallego» é voltá-lo ao curso comum galego-português. O Reintegracionismo.
Aposta de Futuro
Português oficial na Galiza já! A partir da Lei Paz-Andrade.
Acompanhando com a habilitaçom do pessoal público e privado, evitarám-se rejeições administrativas absurdas e sentenças como as mencionadas no início.
Mas, porque se havia de fazer? Para satisfazer umha pequena fundaçom cultural? Para um conjunto ainda minoritário de pessoas e associações reintegracionistas?
Nom só isso, vai muito além! Dando esse passo, reforça-se a utilidade e o prestígio do galego-português na economia, no mundo laboral, dá-se às crianças e a mocidade umha perspetiva de futuro na nossa língua e umha razom forte para a usarem.
Ao mesmo tempo, ao reforçar o uso do galego-português como língua de comunicaçom na Eurorregiom, integrará-se mais o «diamante galego» no «eixo atlântico».
Em suma, tornar oficial o Português nom só criará uma oportunidade real para a continuidade da nossa língua no seio da sociedade galega, como também se articula com a possibilidade de a Galiza afirmar um futuro próprio, ligado ao país vizinho e irmão de língua, rompendo com o papel subalterno de simples fornecedora de mão de obra e recursos naturais ao grande projeto centro-peninsular.
https://www.nosdiario.gal/opinion/vitor-garabana-barro/galego-nom-portugues-portugues-nom-galego-virus/20260116084822243989.html









